Fez o que tinha
a fazer: correu de si. Correu sem nunca mais parar. A desejar não querer olhar
nunca mais para trás. Tinha de fugir do que já não aguentava ser. Aquela falta
esmagadora do que não volta: de quem não voltará.
Uma parte de mim
ficou no passado. Retida nas memórias: nas lembranças que me recordam a
felicidade que existia em mim. Agora não resta nada. Só a falta. O vazio de
quem tinha tudo e não precisava de mais. Era simples: eras tu.
Escolheste
abandonar-me sem aviso. Percebeste que não havia mais nada em ti.
Não ficaram
recados nem últimas palavras. Não houve um simples adeus. O silêncio falou tudo
o que tu não eras capaz. E eu fiquei com a ausência das palavras cravadas no
coração. Fiquei retida com as minhas e possivelmente com as tuas. Fiquei com
tudo o que houve e com o nada que surgiu num ápice.
Sabes todas as
formas de me contactar e no entanto decides, com consciência, não o fazer. Tens
em ti as razões que não dás relevância para explicar.
Denotaste-me desprezo
e pouca relevância – talvez seja isso que me faça ficar apática. A perceção de
que para ti não sou. Que as memórias não te percorrem a mente: de que realmente
eu não te faço falta nem nada do que vivemos foi devidamente significativo.
Olho as paredes
deste quarto tão cheio de nós. Como posso dormir sabendo que tu não estás? Ser
feliz sem sentir o teu corpo abraçado ao meu? Falta-me o nosso calor para
adormecer aconchegada. A tua respiração a beijar o meu pescoço. Os teus braços
a proteger-me dos pesadelos.
Estão apenas as
lágrimas comigo. E essa memória: esse sentir. Essa dor constante: dilacerante.
Este sentimento de ausência que me faz querer desaparecer.
Quero correr
mais. Afastar-me de mim – só assim posso afastar-me de ti.
Não sou quem uma
vez fui:
Ficaste comigo e
não me devolveste.
Perdi a ânsia.
Ficou a consciência de tentar superar um dia de cada vez.
Não há
fotografias nossas. Não há objetos característicos.
Terás sido um
delírio de anos?
Foste ficando em
mim: enraizando.
Agora, envolvida
com a tua forma de ser, não há nada que me possa romper disto.
Talvez tu:
A tua
justificação.
Não posso
esperar pelo que não vem: pelo que não volta. Tu decidiste sem mim. Sem te
preocupares com o que teria a dizer ou sentir.
Deixaste-me
encarregada de me questionar pelos dois.
Dividiste-me em
mil pedaços sem restauro. E tenho de aprender a viver assim. Com um novo eu que
não se levanta totalmente.
Um eu que não se
pertence: que não se une.
Sou agora duas
pessoas diferentes.
E não me
reconheço.
Saiu pela porta
sem nenhuma despedida. Foi sem um adeus.
Foi: fez o que
tinha a fazer.
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