domingo, 31 de janeiro de 2016

Promessa

Estava demasiado perto de ti: a minha mão quase alcançava o teu braço, será que me deixarias tocar-te?

Sabia que tinha sido um erro imperdoável – até que ponto é que as coisas são ou não perdoáveis?

Sentia aquela atração desvanecer, como se já não quisesses aquele nosso pedaço de vida; sou um fracasso como já adivinhavas!

 Pensei que tudo fosse possível – acreditava no desligar das emoções como um ultimato para a sobrevivência -, que eu e tu éramos o que transcendia este mundo terrestre.

Vamos esquecer a honestidade e reverter as palavras; dizer-te uma outra coisa: 

Eu e tu podemos ter-nos sem nos ser?

Tinha sido a nossa promessa: 

Não nos permitirmos sentir.


Desculpa começar a amar-te tanto!

domingo, 24 de janeiro de 2016

Foi

Fez o que tinha a fazer: correu de si. Correu sem nunca mais parar. A desejar não querer olhar nunca mais para trás. Tinha de fugir do que já não aguentava ser. Aquela falta esmagadora do que não volta: de quem não voltará.

Uma parte de mim ficou no passado. Retida nas memórias: nas lembranças que me recordam a felicidade que existia em mim. Agora não resta nada. Só a falta. O vazio de quem tinha tudo e não precisava de mais. Era simples: eras tu.

Escolheste abandonar-me sem aviso. Percebeste que não havia mais nada em ti.

Não ficaram recados nem últimas palavras. Não houve um simples adeus. O silêncio falou tudo o que tu não eras capaz. E eu fiquei com a ausência das palavras cravadas no coração. Fiquei retida com as minhas e possivelmente com as tuas. Fiquei com tudo o que houve e com o nada que surgiu num ápice.

Sabes todas as formas de me contactar e no entanto decides, com consciência, não o fazer. Tens em ti as razões que não dás relevância para explicar.

Denotaste-me desprezo e pouca relevância – talvez seja isso que me faça ficar apática. A perceção de que para ti não sou. Que as memórias não te percorrem a mente: de que realmente eu não te faço falta nem nada do que vivemos foi devidamente significativo.

Olho as paredes deste quarto tão cheio de nós. Como posso dormir sabendo que tu não estás? Ser feliz sem sentir o teu corpo abraçado ao meu? Falta-me o nosso calor para adormecer aconchegada. A tua respiração a beijar o meu pescoço. Os teus braços a proteger-me dos pesadelos.

Estão apenas as lágrimas comigo. E essa memória: esse sentir. Essa dor constante: dilacerante. Este sentimento de ausência que me faz querer desaparecer.

Quero correr mais. Afastar-me de mim – só assim posso afastar-me de ti.

Não sou quem uma vez fui:

Ficaste comigo e não me devolveste.

Perdi a ânsia. Ficou a consciência de tentar superar um dia de cada vez.

Não há fotografias nossas. Não há objetos característicos.

Terás sido um delírio de anos?

Foste ficando em mim: enraizando.

Agora, envolvida com a tua forma de ser, não há nada que me possa romper disto.

Talvez tu:

A tua justificação.

Não posso esperar pelo que não vem: pelo que não volta. Tu decidiste sem mim. Sem te preocupares com o que teria a dizer ou sentir.

Deixaste-me encarregada de me questionar pelos dois.

Dividiste-me em mil pedaços sem restauro. E tenho de aprender a viver assim. Com um novo eu que não se levanta totalmente.

Um eu que não se pertence: que não se une.

Sou agora duas pessoas diferentes.

E não me reconheço.

Saiu pela porta sem nenhuma despedida. Foi sem um adeus.


Foi: fez o que tinha a fazer. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Gotas de ser

Estás a tentar destruir-nos.

Não é possível. Há uma ligação inquebrável: sente-se no ar a tensão.

São só palavras tuas. Palavras secas: sem vontade. Vou sair da porta. Estou quase a equilibrar-me: a erguer-me do chão. Eu vou.

Sei que estás às voltas. Desta vez. Como todas as outras tantas vezes.
Precisas de mim. Tu sabes:

O teu fornecedor:

De amor.

Não negues a vida que eu te dou quando sabes que sem mim não vives.

Revoga a teimosia e anda.

Caminha para mim como eu sei que tanto sabes.

Que tanto conheces.

Podes vir de olhos fechados que sei que chegas sem qualquer lesão.

A tua maior lesão é estar sem mim.

Volta.

Encontramo-nos sempre. Nem que seja a meio do caminho.

                              
O sangue já está a desaparecer: anda rápido para ainda o veres.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Marco do Limite

Estava no risco iminente de mim. Naquela parte sombria que te arrasta para os pesadelos. Para seres o monstro dos teus medos. Só tu te podes colocar limites. Não é o mundo que os define. Tu és autor das tuas criações; perceções do que és ou não capaz. Rejeita as vertigens das impossibilidades e transforma-as em pedaços de luta.

Mata esse pavor de falhar; de ser constantemente um erro. Não existe perfeição: só seres capazes de dar o teu melhor a ser autêntico.

Se errares? Se falhares?

O suor caia no chão. Sentia a primavera derreter-me aos poucos. Os pés percorriam velozmente aquela estrada com fome de atingir para além do marco. O corpo começava a demostrar fadiga. Os músculos exigiam que parasse. Todo o eu estava em sofrimento – não iria parar. É a dor que nos torna capazes de ultrapassar os obstáculos. É esse sangre que nos escorre pelos olhos que nos faz ver.

Se errares? Se falhares?

Somos melhores ao sermos inundados pela vida.

Tinha essas palavras presas no meu consciente - precisava de me libertar dessas ideações: do que me empurrava para trás. Os pés quase já não aguentavam todo o peso do corpo: o peso dos assombros.

Desiste. Para! Não és capaz. Nunca foste: não serás. Tudo é indicador dessa derrota. Para quê humilhares-te? Isso é teimosia: burrice diria.

A irritação irrigava-me as veias. Estava a perder a sanidade pelo cansaço de me inferiorizar. Eu própria era a minha destruição. Como seria eu capaz de me minimizar?

Sentir dentro de cada respiração que não tinha qualquer significância: importância. Que era metade de um pedaço de nada.

Todos os sentimentos se ampliaram e algo me impulsionou. Avançava mais ferozmente. Já não sentia a dor: só a mim. Corria com a força que me era desconhecida.

-Tu não me podes magoar outra vez.

O corpo bailava com a fita da meta.

Tinha conseguido: tinha-me superado.


O pé tinha calcado o marco do limite. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

Predadores da felicidade

A emoção surge nas veias em pulsões. Sinto o sorriso a responder ao que nos une - não há controlo dos sentimentos. Não sei como surgiu: o que fizeste para que me entregasse assim a esta nova aventura.

Escolhi correr de todos os medos: lutar contra os monstros do passado que por vezes ainda corroem os pensamentos. Afinal a vida não é a equilíbrio do desequilíbrio?

Todos precisamos da adrenalina a consumir as nossas palavras: aquilo que corrói a nossa inocência e nos transforma em predadores da felicidade.

Fazes-me deslizar sobre o inesperado e querer conhecer mais do nosso futuro. 

- Anda caminhar no que podemos construir.

- Não há outro lugar se não os teus braços que me faça querer partilhar o que sou.

Estamos juntos dentro das nossas almas.

Percorremos as memórias que nos levaram a hoje - talvez nenhum de nós mudasse nada: chegamos à obtenção um do outro.

 - Preparada para seres-te de novo?

Não há explicações que possam ditar todos os nossos comportamentos. Somos levados pelo vento. Somos conduzidos pelo som do que nos é atraente: a vida.

Vamos viver o que nos é permitido e o perigo do desconhecido?

- Anda comigo, sem me largares a mão. Não sei para onde; nem quanto tempo. Mas anda no que queremos; no que acreditamos agora. Quem sabe, na eventualidade, do para sempre.

- Seja ele o tempo que for.


O nosso para sempre.