domingo, 13 de dezembro de 2015

Lágrimas manchadas


As minhas mãos estão sujas com o nosso amor. Tenho nelas as manchas das memórias. A dor do passado que se está a ficar. Que não está a ser transposto para o futuro.

Eu não quero – dita o silêncio que se espelha de ti.

E uma pessoa consegue decidir parte da vida da outra – sem lhe dar margem para lutar. Estás presa à insignificância; à incoerência de dois mundos (antes) unidos e agora totalmente separados.  

Olhas em redor, tudo o que era familiar transformou-se em estranheza. Tocas nas lágrimas que consomem o teu rosto: já não sabes do que és feita. Tens o mundo a ser-te retirado sem requerimento de autorização.

Agora tens de, sozinha, saber lidar contigo mesma.

Vês-te a alma: não reconheces.

Como se pode entender quem deixaste de conhecer?


-Já não sou o teu presente.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sequestro da Solidão



Acordei para uma certa parte da loucura: a outra viverá sempre comigo. 

Os olhos abriram ali: naquela terra incorporada de lama em que eu fazia parte dos seus constituintes. 

Não estava correto: eu sou mais que isso. A chuva caía abruptamente sobre o corpo como se cortasse cada verdade que retaliava como fixa. 

E cortou. Cortou todo um filamento: um passado que parecia refletir a perfeição – mentira. 

Mentira grossa e fria. 

Tão fria que congelou o cérebro deixando-me ali: evolvida pela inexistência. 

Não foi o sol que me fez erguer. Não foi um arco-íris que apareceu sobre a ténue limpeza do horizonte: não. 

Foi a pequena lucidez que me resta; a fraca luz que ainda me consegue guiar. 

Desta força interior, que desconheço a sua origem, veio a razão; a certeza. Sei o que estou a fazer. 

É o mais correto para mim. 

Estou presa neste local. Não posso sair: mal posso respirar. 

Não há janelas; não há luz. 

Escuridão – é aquilo de que necessito para voltar a viver; para acordar e poder nascer de novo.