domingo, 13 de dezembro de 2015

Lágrimas manchadas


As minhas mãos estão sujas com o nosso amor. Tenho nelas as manchas das memórias. A dor do passado que se está a ficar. Que não está a ser transposto para o futuro.

Eu não quero – dita o silêncio que se espelha de ti.

E uma pessoa consegue decidir parte da vida da outra – sem lhe dar margem para lutar. Estás presa à insignificância; à incoerência de dois mundos (antes) unidos e agora totalmente separados.  

Olhas em redor, tudo o que era familiar transformou-se em estranheza. Tocas nas lágrimas que consomem o teu rosto: já não sabes do que és feita. Tens o mundo a ser-te retirado sem requerimento de autorização.

Agora tens de, sozinha, saber lidar contigo mesma.

Vês-te a alma: não reconheces.

Como se pode entender quem deixaste de conhecer?


-Já não sou o teu presente.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sequestro da Solidão



Acordei para uma certa parte da loucura: a outra viverá sempre comigo. 

Os olhos abriram ali: naquela terra incorporada de lama em que eu fazia parte dos seus constituintes. 

Não estava correto: eu sou mais que isso. A chuva caía abruptamente sobre o corpo como se cortasse cada verdade que retaliava como fixa. 

E cortou. Cortou todo um filamento: um passado que parecia refletir a perfeição – mentira. 

Mentira grossa e fria. 

Tão fria que congelou o cérebro deixando-me ali: evolvida pela inexistência. 

Não foi o sol que me fez erguer. Não foi um arco-íris que apareceu sobre a ténue limpeza do horizonte: não. 

Foi a pequena lucidez que me resta; a fraca luz que ainda me consegue guiar. 

Desta força interior, que desconheço a sua origem, veio a razão; a certeza. Sei o que estou a fazer. 

É o mais correto para mim. 

Estou presa neste local. Não posso sair: mal posso respirar. 

Não há janelas; não há luz. 

Escuridão – é aquilo de que necessito para voltar a viver; para acordar e poder nascer de novo.  



domingo, 29 de novembro de 2015

Sombras de Esperança

Estava sentada no meio da multidão. Tinha todas as sombras a apoderarem-se de mim. Sentia-me sozinha apesar de ter milhares de olhares a cruzarem-se e a perderem-se no quotidiano. Somos todos tão egoístas que não conseguimos parar e reparar no que está à nossa volta.
Era uma praça e eu encontrava-me centrada naquele local.
As mãos tremiam da necessidade de expulsar as emoções.

“É agora. É hoje. Vou por mim. Por ti. Vou.
Quero ter-te nos meus braços. Sentir o teu coraçãozinho encostado à segurança do meu. E proporcionar-te isso mesmo: proteção. Envolver-te num manto de solidez. Deixar-te cair, mas ajudar-te a subir patamares ao seres tu mesma. Educar-te a viveres cada dia. A não desperdiçares tempo, a saboreares cada minuto – cada instante tem a dádiva da sabedoria.
Por favor: permite-me.
Encontra-te comigo no meio da praça. Amanhã à tarde.
Esperarei por ti, minha pipoca.
Da tua mãe, que sempre esteve presente.
Amo-te.”

Ela saia agora do café – tinha estado a lanchar com as amigas após sair da explicação. O pai estaria a chegar: era tão pontual. Tinha de conseguir que colocassem a folha na mochila. E se ela não reparasse nela? Precisava de ter a confirmação de que ela a veria.
Sentia todo o corpo a tremer. Não seria correto? Eu precisava disto. E sentia que a minha filha também. Chamemos-lhe intuição de mãe – apesar de não ter estado uma única vez com ela eu sabia que ela me queria conhecer. Quem não quer conhecer quem a gerou?
Falhei? Óbvio! Tantas vezes. Mas foi por falhar que saí da sua vida. Não queria que ela seguisse os meus passos. Queria que crescesse e tivesse um bom modelo por quem se guiar. Tinha: o seu pai – um homem com valores e promessas inquebráveis.
Um pequeno rapaz esbarra-se contra mim - deixei cair a folha, que segurava com tanta veemência, ao chão.
-Peço imensa desculpa, minha senhora.
-Não tem mal, meu querido. – Fiz-lhe uma carícia no seu cabelo loiro. – Será que te posso pedir um favor?
-Claro, diga.
-Estás a ver aquela menina que está a caminhar na direção das escadas?
-Sim.
-Quero que apenas lhe entregues esta carta. Por favor, garante que ela pelo menos a abre antes de deitar fora.
-Porque haveria de deitar?
-Porque pode achar que não era para ela, sabes? Ou que é alguém a tentar brincar com ela, mas daquelas brincadeiras de muito mau gosto e que não se fazem a meninas tão pequeninas.
-Realmente ela é novinha. Não se preocupe.
-Muito obrigada, meu anjo.
E se não o parecia realmente. Era ele que ia possibilitar, hipoteticamente, o nosso encontro.
As mãos estavam a tremer e todo o corpo começava a suar. Seria assim que o meu amor se expressaria? Por uma ansiedade extrema que me estava a levar à tontura?
Sentei-me, mas depressa precisava de sair dali: esconder-me. Ir para um sítio diferente, em que pudesse continuar a observar tudo o que iria acontecer. Mas um local que impossibilitasse a visibilidade da minha menina. Ela não poderia ver-me hoje, não hoje. Precisava de me preparar.
Por um lado era a ânsia de querer abraçá-la – tinha de ser cautelosa. Não poderia perder todas outras possibilidades por um breve impulso. Necessitava de ser cuidadosa, minuciosa como nunca fora.
Tinha errado: tinha aprendido com a perda e o afastamento.
A minha filha tinha-me ensinado a ser diferente: melhor – já fizera tanto por mim sem me conhecer.
Vi, bem de longe, aquelas mãozinhas pequeninas de menina de 6 anos a receber o papel.
Abriu-o. E senti algo a brilhar nos seus olhos.
Seria alegria? Lágrimas?
Um carro chegou e ela escondeu o papel no bolso das suas calças.
Abriu a porta e entrou.
Senti qualquer coisa dentro de mim a estremecer. Era pânico: medo de não a voltar a ver. E se Jorge apanhasse aquele papel? E se fosse ele que viesse ao meu encontro em vez dela? Ou se ela não aparecesse?
Era tudo um risco – mas o que não será? Precisava de estar nessa linha trémula e ter ambas as possibilidades. Mas tinha-as. Tinha tentado – e isso não é tudo que se tem de fazer?

No dia seguinte estava lá de novo.
A ansiedade era muito maior. Sentia-me a perder controlo do meu corpo. Parecia que tudo me fugia. Até eu própria. Estava agarrada à esperança.
Ela mantinha-me viva.
A esperança.
A minha pipoca.
O relógio revelava as quatro horas da tarde exatas.
Vi uma menina a correr para o centro da praça. A correr para mim.
Vinha aí. Estava a acontecer.
Era a cor do meu sangue.


domingo, 22 de novembro de 2015

Dualidade

Tenho frio.

O corpo está a tremer: sinto-me a descontrolar.

Tudo se está a evaporar: as memórias; o que fui.

Há um alinha ténue que me prende ao antigo eu. Consigo senti-la a romper a cada batida. A cada cair do corpo nas rochas do medo.

Tu atiras-me para o precipício: para a escuridão que me vive.

Queremos acreditar que só existe luz. A verdade é que os sonhos interrompidos são o lembrete da incapacidade. As falhas são a perceção de que ali não fomos capazes.

Nasce o outro eu: (possivelmente) o mais verdadeiro.

O revelador de todos os nossos segredos.

Todos os lados mais detestáveis.

O teu eu em ódio:

Em vingança.

E não é contra isso que lutamos para não nos tornar?

Uma luta constante contra o outro lado de nós.

A exclusão de metade;

A rejeição de parte de ti.

Sinto-me a ir:

A ficar.

Estou finalmente a congelar: a desistir.

Vou ser-me por inteiro.

Vamos ver quem tem mais poder?


Que vença o eu mais meu.