Estava sentada
no meio da multidão. Tinha todas as sombras a apoderarem-se de mim. Sentia-me
sozinha apesar de ter milhares de olhares a cruzarem-se e a perderem-se no
quotidiano. Somos todos tão egoístas que não conseguimos parar e reparar no que
está à nossa volta.
Era uma praça e
eu encontrava-me centrada naquele local.
As mãos tremiam
da necessidade de expulsar as emoções.
“É agora. É hoje. Vou por mim. Por ti. Vou.
Quero ter-te nos meus braços. Sentir o teu
coraçãozinho encostado à segurança do meu. E proporcionar-te isso mesmo:
proteção. Envolver-te num manto de solidez. Deixar-te cair, mas ajudar-te a
subir patamares ao seres tu mesma. Educar-te a viveres cada dia. A não
desperdiçares tempo, a saboreares cada minuto – cada instante tem a dádiva da
sabedoria.
Por favor: permite-me.
Encontra-te comigo no meio da praça. Amanhã
à tarde.
Esperarei por ti, minha pipoca.
Da tua mãe, que sempre esteve presente.
Amo-te.”
Ela saia agora
do café – tinha estado a lanchar com as amigas após sair da explicação. O pai
estaria a chegar: era tão pontual. Tinha de conseguir que colocassem a folha na
mochila. E se ela não reparasse nela? Precisava de ter a confirmação de que ela
a veria.
Sentia todo o
corpo a tremer. Não seria correto? Eu precisava disto. E sentia que a minha
filha também. Chamemos-lhe intuição de mãe – apesar de não ter estado uma única
vez com ela eu sabia que ela me queria conhecer. Quem não quer conhecer quem a
gerou?
Falhei? Óbvio!
Tantas vezes. Mas foi por falhar que saí da sua vida. Não queria que ela
seguisse os meus passos. Queria que crescesse e tivesse um bom modelo por quem
se guiar. Tinha: o seu pai – um homem com valores e promessas inquebráveis.
Um pequeno rapaz
esbarra-se contra mim - deixei cair a folha, que segurava com tanta veemência,
ao chão.
-Peço imensa
desculpa, minha senhora.
-Não tem mal,
meu querido. – Fiz-lhe uma carícia no seu cabelo loiro. – Será que te posso
pedir um favor?
-Claro, diga.
-Estás a ver
aquela menina que está a caminhar na direção das escadas?
-Sim.
-Quero que
apenas lhe entregues esta carta. Por favor, garante que ela pelo menos a abre
antes de deitar fora.
-Porque haveria
de deitar?
-Porque pode
achar que não era para ela, sabes? Ou que é alguém a tentar brincar com ela,
mas daquelas brincadeiras de muito mau gosto e que não se fazem a meninas tão
pequeninas.
-Realmente ela é
novinha. Não se preocupe.
-Muito obrigada,
meu anjo.
E se não o
parecia realmente. Era ele que ia possibilitar, hipoteticamente, o nosso
encontro.
As mãos estavam
a tremer e todo o corpo começava a suar. Seria assim que o meu amor se
expressaria? Por uma ansiedade extrema que me estava a levar à tontura?
Sentei-me, mas
depressa precisava de sair dali: esconder-me. Ir para um sítio diferente, em
que pudesse continuar a observar tudo o que iria acontecer. Mas um local que
impossibilitasse a visibilidade da minha menina. Ela não poderia ver-me hoje,
não hoje. Precisava de me preparar.
Por um lado era
a ânsia de querer abraçá-la – tinha de ser cautelosa. Não poderia perder todas
outras possibilidades por um breve impulso. Necessitava de ser cuidadosa,
minuciosa como nunca fora.
Tinha errado:
tinha aprendido com a perda e o afastamento.
A minha filha
tinha-me ensinado a ser diferente: melhor – já fizera tanto por mim sem me
conhecer.
Vi, bem de
longe, aquelas mãozinhas pequeninas de menina de 6 anos a receber o papel.
Abriu-o. E senti
algo a brilhar nos seus olhos.
Seria alegria?
Lágrimas?
Um carro chegou
e ela escondeu o papel no bolso das suas calças.
Abriu a porta e
entrou.
Senti qualquer
coisa dentro de mim a estremecer. Era pânico: medo de não a voltar a ver. E se
Jorge apanhasse aquele papel? E se fosse ele que viesse ao meu encontro em vez
dela? Ou se ela não aparecesse?
Era tudo um
risco – mas o que não será? Precisava de estar nessa linha trémula e ter ambas
as possibilidades. Mas tinha-as. Tinha tentado – e isso não é tudo que se tem
de fazer?
No dia seguinte
estava lá de novo.
A ansiedade era
muito maior. Sentia-me a perder controlo do meu corpo. Parecia que tudo me
fugia. Até eu própria. Estava agarrada à esperança.
Ela mantinha-me
viva.
A esperança.
A minha pipoca.
O relógio
revelava as quatro horas da tarde exatas.
Vi uma menina a
correr para o centro da praça. A correr para mim.
Vinha aí. Estava
a acontecer.
Era a cor do meu
sangue.
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